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TRAGA-ME
Cáritas Souzza
Traga-me o mar com as espumas que cobrem as canoas que dançam alegres ao sabor das ondas agitadas.
Traga-me a quietude do luar de prata, que vai se derramar pelas frestas da janela quando fizermos amor.
Traga-me um pensamento que não foi só sentimento de raiva e ira, mas que acima de tudo foi, é e continua sendo amor.
Traga-me o ritmo das cartas sendo embaralhadas e, traçadas pela mão amiga do destino.
Traga-me seu álbum de fotos e as figurinhas repetidas para poder trocar e formar um outro álbum.
Traga-me o medo da escada da vida, com as tampas de vidro dos perfumes que foram usados.
Traga-me seu nome na escrita de tua rubrica.
Traga-me o cheiro da sua cidade natal, acompanhada do estojo de linha e anzol para poder pescar.
Traga-me o sótão de seus livros, seus CDs mais ouvidos na letra mais arisca e, ao mesmo tempo mais doce.
Traga-me a conversa de corredor, a porta observada.
Traga-me as lembranças no colo e a carícia nos ouvidos.
Traga-me as jóias falsas e as verdadeiras, para as pedras disputarem corrida no piso da sala.
Traga-me também seus problemas incomunicáveis.
Traga-me a indulgência inocente aos jogos de vídeo-game.
Traga-me a manhã depois de ter amado à noite.
Traga-me a noite depois de ter odiado à tarde.
Traga-me sua risada, a insensatez , o palavrão.
Traga-me a Bíblia marcada com a fita de meus cabelos feito cachos.
Enfim... Traga-me a salvo o que ainda não abrimos juntos.
Mas... Traga alguma coisa para ser compartilhado e vivido a dois.



SAUDADE
Cáritas Souzza
Saudade...
Da grama amanhecida e orvalhada
Das sandálias chutando o vento
Das gavetas e seus pertences guardados
Como um segredo da memória.
Saudade da fita de vídeo rebobinada várias vezes
Para assistir sempre ao meu mesmo filme
Que ficou impregnado dentro do coração.
Saudade das abelhas e seus zumbidos de asas
Da respiração vaporosa das minhas filhas quando crianças
Dos cachorros desidratando a terra
E dos gatos em telhas soltas
Fazendo serenatas em noites de lua cheia.
Saudade das mãos concentradas nos cabelos
Do fogo infantil de uma vela
Do fogo adulto de uma lareira
Do cristal luminoso do lustre que brilha
E ofusca os olhos cansados.
Saudade dos sapatos deitados no chão do quarto
Das cobertas transformadas em travesseiros na janela
Das estrelas escamadas iluminando o mar
No silêncio das noites calmas.
Enfim...
Sinto saudade da lágrima que se afasta
Para ler o que se escreveu nos olhos.
